Adaptar a casa para fazer face à demência não é apenas instalar barras, retirar tapetes. É, antes de mais, criar um ambiente que respeita quem a pessoa é, a sua história, preferências, ritmo e capacidades — garantindo segurança, conforto e oportunidades diárias de participação.
Estas alterações ao ambiente /contexto devem ser realizadas se e quando a pessoa que vive com demência necessitar.
Não adaptamos a casa para a Demência, mas adaptamos o contexto àquela Pessoa singular que vive com Demência.
Nestes termos, todas as sugestões a que se faz referência neste artigo devem ser encaradas como exemplos e terão sempre de ser avaliadas para cada pessoa, em concreto.
A regra de ouro é se causa ansiedade, confusão ou desorientação, retire.
Como adaptar a casa da Pessoa que vive com Demência
Na prática, para a casa servir a Pessoa, é necessário:
• Conhecer a pessoa (gostos, rotinas, memórias marcantes, necessidades e capacidades) e incluí-la nas escolhas de arrumação, decoração e organização do dia.
• Reduzir exigências cognitivas desnecessárias (menos ruído, menos desarrumação, pistas visuais claras).
• Manter a autonomia possível com pequenos arranjos: colocar à vista o que é para usar agora, esconder o que pode confundir.
• Providenciar espaços de convivência: sala com lugares confortáveis, iluminação quente e fotografias de momentos felizes.
• Ajustar a luz: maximizar a luz natural, optar por luzes quentes e uniformes e evitar sombras fortes e reflexos que criem “buracos” visuais.
• Ter em atenção a temperatura e ruído: quartos e sala com temperatura estável; reduzir ruídos intermitentes (ex.: exaustores, alarmes estridentes).
• Criar rotas seguras: remover obstáculos, cabos e tapetes soltos. Colocar pavimentos antiderrapantes e barras de apoio onde faça sentido.
• Valorizar objetos com significado: manter peças que a pessoa reconhece (um livro, manta, rádio, fotografia), organizadas por zonas.
• Arranjar pistas biográficas: quadros com nomes de divisões/zonas (“Cozinha da Maria”, “Cantinho do Chá”), álbum simples à vista com fotos legendadas.
• Promover atividades com propósito: cestos à vista com tarefas adaptadas (dobrar panos, regar plantas, separar fotografias, descascar fruta macia).
• Colocar os materiais acessíveis: utensílios seguros, a meia-altura, visíveis e fáceis de alcançar (prateleiras abertas ou portas transparentes).
• Criar um mapa social: contactos importantes impressos e expostos (família, vizinhos, médico, centro de dia).
• Validar emoções e adaptar o ambiente quando surgem sinais de ansiedade, apatia, agitação ou desorientação.
Divisão a divisão: adaptações que podem fazer diferença
Entrada e corredores
• Contrastes: puxadores e interruptores com cor contrastante; fita refletora em degraus.
• Sinalética simples: setas ou pictogramas (ex.: “casa de banho”, “quarto”) com menos texto e mais símbolos.
Sala
• Televisão: volume moderado, afastar de noticiários contínuos; usar canais de música/filmes familiares.
• Relógio e calendário grandes: com dia/semana/mês; quadro branco para “Plano do Dia” (duas ou três atividades, no máximo).
Cozinha
• Segurança: válvula corta-gás, bloqueios simples no fogão, chaleiras com corte automático; facas guardadas quando não usadas.
• Organização visual: loiça do dia à vista; etiquetas com palavras + ícones (“chá”, “copos”, “pão”).
• Hidratação e nutrição: garrafa de água com marcações; taças de fruta prontas; talheres mais espessos para melhor pega.
Casa de banho
• Barras e assento elevado: para facilitar transferências; tapete antiderrapante fixo (evitar soltos).
• Contraste: tampa da sanita de cor contrastante com o chão; toalhas de cor sólida (evitar padrões confusos).
• Privacidade com orientação: cartaz simples “Casa de Banho” com pictograma; luz noturna suave.
Quarto
• Ritmo do sono: cortinas que bloqueiam luz excessiva; luz de presença; evitar relógios luminosos fortes.
• Vestir-se com autonomia: conjunto do dia separado (calças, camisola, meias) numa única prateleira/cesto; retirar “opções a mais”.
Exterior e Varanda
• Caminho seguro: piso regular, cadeira estável à sombra; jardim de sentidos (ervas aromáticas, plantas com significado).
Tecnologia útil (simples e centrada na pessoa)
• Sensores discretos: detetor de fumo/gás; luz de presença com sensor de movimento.
• Localizadores: chaveiros/bilhetes com contacto; telemóvel básico com botão SOS.
• Rotinas digitais: lembretes de medicação com alarme suave; moldura digital com fotos familiares (troca lenta, sem estímulo em excesso).
Uma Casa Amiga na Demência
Uma casa “amiga na demência” é aquela que reduz obstáculos e aumenta oportunidades: de reconhecimento, de conforto, de participação e de vínculo. Não há duas casas iguais, porque não há duas pessoas iguais.
O melhor projeto começa sempre por escutar a pessoa e observar o que a acalma, o que a ajuda, a interessa e faz sentido e adaptar consoante as necessidades. Como parceiros de cuidados o nosso papel é facilitar a vida da Pessoa que vive com Demência todos os dias, um passo de cada vez.







.png)